Críticas

O Assassino da Furadeira (1979)

Primeiro filme de Abel Ferrara é uma doideira para públicos específicos

O Assassino da Furadeira
Original:The Driller Killer
Ano:1979•País:EUA
Direção:Abel Ferrara
Roteiro:Nicholas St. John
Produção:Rochelle Weisberg
Elenco:Abel Ferrara, Carolyn Marz, Baybi Day, Harry Schultz, Alan Wynroth, Maria Helhoski, James O'Hara, Richard Howorth, Louis Mascolo, Tommy Santora, Rita Gooding, Chuck Saaf, Gary Cohen, Janet Dailey, Joyce Finney, Butch Morris, Paul Fitze, John Fitze

Se O Massacre da Serra Elétrica tivesse sido dirigido por Roman Polanski e Halloween pelo malucão David Lynch, o resultado seria algo muito próximo de The Driller Killer, um famosíssimo filme de baixo orçamento lançado em 1979 e dirigido por um jovem Abel Ferrara. Hoje considerado um dos melhores cineastas contemporâneos (graças a obras fortes como Vício Frenético, O Rei de Nova York e Os Chefões), Ferrara iniciou sua carreira fazendo curtas-metragens experimentais e até filmes pornográficos explícitos (com penetração e tudo), como Nine Lives of a Wet Pussy, de 1976, dirigido com o pseudônimo “Jimmy Boy” (há quem acredite que ele dirigiu outros pornôs sob pseudônimo, mas Ferrara não quer nem saber de tocar no assunto).

Em 1977, quando estava com 26 anos de idade, o jovem cineasta resolveu investir na onda do cinema de horror exageradamente sangrento para exibição em drive-ins. Na época, o gênero estava em alta graças ao sucesso de produções de baixo orçamento, tipo Last House on the Left, de Wes Craven, e O Massacre da Serra Elétrica, de Tobe Hooper.

Ao contrário de seus colegas, porém, Ferrara usou surrealismo e experimentalismo no lugar de sustos e sangue, transformando seu filme de estreia (que foi batizado O Assassino da Furadeira no Brasil) em uma obra diferente, que lembra mais o cinema de Polanski (especialmente os clássicos Repulsa ao Sexo e O Inquilino) ou o clima de loucura urbana de Taxi Driver, de Martin Scorsese. Fãs do gênero certamente ficarão decepcionados com a obra, que sofre de um excesso de delírios e simbolismos, além de uma pretensão extremada de seu realizador – já enfocando, no filme de estreia, temas que permeariam toda a sua carreira. Apesar de eu ter comparado O Assassino da Furadeira a Polanski e Scorsese, este horror barato não pode e nem deve ser comparado ao trabalho dos mestres. Na verdade, a estreia cinematográfica de Ferrara é bem ruinzinha, daquelas produções que ganham fama “cult” graças à polêmica, mas que merece ser conhecida justamente pela sua má fama.

Muitos dizem que foi O Assassino da Furadeira que estreou o uso pouco ortodoxo de furadeiras no cinema de horror, originando obras posteriores, como a trilogia The Slumber Party Massacre (iniciada em 1982), onde os assassinos sempre usam brocas para matar as vítimas. Isso porque, embora tenha sido lançado em 79, o filme de Ferrara foi rodado entre 1977 e 78, e o exploitation The Toolbox Murders, que já mostrava uma morte por furadeira, é de 1978. Mas quem acredita que O Assassino da Furadeira é uma sucessão de mortes bizarras, com pessoas sendo “furadas” até a morte, vai quebrar a cara: lento e bizarro, demora 40 minutos para mostrar a primeira morte e depois fica mais um tempão perdendo-se em loucuras variadas antes do sangue voltar a rolar. A espera, pelo menos, vale a pena: todos os assassinatos são filmados demoradamente, em riqueza de detalhes, no esquemão independente que hoje não se vê mais, com longos takes da broca fazendo estrago em suas vítimas.

Rodado em 16 milímetros e com um orçamento dos mais reduzidos (míseros 20 mil dólares!!!), sem pretensões de ser clássico, O Assassino da Furadeira é estrelado por um bando de desconhecidos, estudantes de cinema e teatro que jamais apareceram em outro filme. A exceção é o próprio “Driller Killer“, interpretado por ninguém menos que o diretor Abel Ferrara, escondido atrás do pseudônimo “Jimmy Lane“. Careteiro que só ele, Ferrara comprova que, como ator, é um excelente cineasta: tudo que ele faz no filme é olhar para a câmera com cara de psicótico e berrar o tempo inteiro. Seu personagem é um artista plástico nova-iorquino chamado Reno Miller, um sujeito que está perdendo a razão devido às neuroses e dificuldades da cidade grande – mais ou menos uma versão alternativa do Travis Bickle interpretado por Robert DeNiro no fantástico Taxi Driver, de Scorsese.

Reno vive num apartamento de quinta categoria em algum bairro pobre de Nova York, um local de alta criminalidade e cercado por mendigos – em takes que parecem coisa de documentário, Ferrara retrata miseráveis se arrastando pela sarjeta e até um velho mendigo vomitando sobre o próprio corpo enquanto dorme. Nosso “herói” divide o tal apartamento, que usa como ateliê, com duas garotas: sua namorada Carol (Carolyn Marz), com quem vive entre tapas e beijos, e Pamela (Baybi Day), a amiga e “namorada” de Carol nas horas vagas. Sim, trata-se de um complicado triângulo amoroso. Rodeado por obras surrealistas, Reno trabalha em um painel enorme representando um búfalo estilizado, que parece encarar o artista com um olhar censurador. Sem dinheiro para pagar o aluguel, a conta de telefone e para sustentar as duas garotas, Reno deposita suas esperanças na tela, que simplesmente não consegue terminar, e que pretende vender ao dono de uma galeria de arte, o endinheirado Dalton Briggs (Harry Schultz).

A sanidade do sujeito começa a ir pro brejo quando uma banda punk, chamada The Roosters e liderada pelo maluco Tony Coca-Cola (D.A. Metrov), muda-se para o apartamento ao lado e passa a ensaiar noite e dia, numa rotina barulhenta que acaba com a concentração de Reno, além de impedi-lo de dormir. O artista, que já é um cara revoltado e enfurecido, passa a ficar ainda mais difícil de suportar graças à insônia. Para piorar a coisa, ele começa a ser acometido por estranhas alucinações depois de testemunhar cenas fortes da miséria urbana, inclusive um assassinato bem em frente ao seu prédio. Paranóico e furioso, Reno vai perdendo a razão lentamente, sendo bombardeado por visões lisérgicas em que enxerga Carol com os olhos furados, um vulto fantasiado de coelho e ele próprio banhando-se alegremente em sangue. A gota d’água vem numa noite como todas as outras, em que Reno e as garotas assistem TV e ele vê um comercial do “Proto-Pak“, um cinturão de baterias para ligar ferramentas elétricas, que o cara usa no corpo, como um cinto, para poder fazer funcionar eletrodomésticos em locais onde não há eletricidade!!! Sem pensar duas vezes, ele compra um destes cintos e liga nele uma furadeira. Torna-se o “driller killer“, saindo para a noite nova-iorquina com o intuito de executar indigentes.

A matança de mendigos com a furadeira é algo como uma terapia para o descontrolado Reno, que acorda renovado no dia seguinte e inspirado para continuar seu trabalho no painel do bisonte. Mas as coisas seguem se complicando: é a banda que não pára de tocar no apartamento ao lado, é o zelador do prédio que não faz nada para ajudá-lo, é a desesperadora falta de dinheiro, é a vontade de Carol de voltar para seu ex-namorado bem de vida, Stephen… Enfim: mais cedo ou mais tarde, Reno se entregará a uma descontrolada fúria homicida, matando não só mendigos anônimos, mas também as pessoas de seu círculo de convivência, que acredita serem responsáveis pelo seu “fracasso“. Até o final, a broca ainda fará muito estrago – e o sangue continuará jorrando…

O Assassino da Furadeira é uma produção excessivamente fragmentada, e, visivelmente, um trabalho de iniciante – a primeira cena é um letreiro alertando o espectador: “This film should be played loud“, ou “Este filme deve ser exibido no volume máximo“. O que parece é que tanto Ferrara quanto o roteirista Nicholas St. John (um colaborador habitual do diretor) tomaram doses cavalares de ácido lisérgico, filmaram as viagens que tiveram e depois tentaram uni-las por um fio condutor, que seria a história do maníaco com a furadeira. Acredite: dos 96 minutos da obra (na versão sem cortes), cerca de metade do tempo é gasto com cenas da banda The Roosters tocando (!!!), no palco de bares ou no apartamento onde ensaiam. Sério: numa hora Reno está perdendo o controle, e então a cena corta para a banda tocando; em outra Reno está matando um mendigo com uma furadeira, e novamente a cena corta para os Rooster tocando no palco de um bar!!! Lá pelas tantas, parece o mais longo videoclipe que se tem notícia – o próprio Ferrara escreveu algumas das músicas tocadas pela banda.

O problema é que estas cenas mostrando os The Roosters em ação, além de não terem qualquer finalidade na trama, ainda quebram totalmente o ritmo da história, tornando o filme chato e repetitivo, até pelo amadorismo com que o cineasta filma os shows e ensaios, sempre em planos longos, sem cortes, apenas passando a câmera de um integrante da banda ao outro, num esquema bem amadorzão mesmo, com imagem tremendo e saindo do foco. Alguns momentos são insuportáveis para as pessoas normais, como quando Ferrara gasta uns cinco minutos filmando o camarim da banda, onde os músicos estão tomando drogas e sendo assediados por fãs. Aparentemente sentado no meio do camarim, o cameramen fica girando a câmera, sem cortes, durante todo o tempo de duração da cena, dando closes dos mais esquisitos, como quando enfoca um dos músicos, completamente chapado, fazendo beicinho e mostrando a língua para a câmera!!!

E a outra metade de O Assassino da Furadeira, se salva? Bem, aí vem mais um problema. Além de gastar uns 45 minutos enfocando a banda, Ferrara também perde um tempo precioso com outras baboseiras que em nada contribuem para a história, e parecem existir apenas para ocupar espaço – ou na tentativa de chocar gratuitamente o espectador. Neste quesito, há duas cenas antológicas: o rápido sexo lésbico entre Carol e Pamela no chuveiro (algo gratuitíssimo), e o momento escatológico em que Reno ganha de presente do zelador um coelho esfolado para assar; no momento seguinte, a câmera filma, demoradamente, o artista esquartejando o bicho, arrancando os órgãos internos e apunhalando repetidas vezes a cabeça do coelho – menos mal que ele está morto, ao contrário do que os italianos faziam com os animais vivos em filmes tipo Cannibal Holocaust.

Existem, ainda, alguns momentos sem qualquer explicação, como a própria cena inicial, onde Reno vai até uma igreja de periferia encontrar um velho com uma barba enorme de Papai Noel. Quando o “herói” se aproxima do desconhecido, o velhote agarra sua mão e Reno sai correndo para fora da igreja, fugindo com Carol de táxi. Bem, a partir de então, ninguém mais fala uma única frase sobre o acontecimento, nem jamais ficamos sabendo o motivo de esta cena existir no filme – nos comentários feitos para o DVD, o diretor Ferrara explica que Reno acreditava que aquele velho esquisito era seu pai, que abandonou a família quando o artista ainda era criança. Outro momento de suprema bizarria é aquele em que dois homens esperam o ônibus numa parada e, do nada, surge um maluco que fica falando bobagens e dançando. Tudo bem que o malucão logo vira uma das vítimas do “driller killer“, mas Ferrara perde um tempão danado filmando as estripulias do sujeito, num humor excêntrico do tipo que David Lynch faria posteriormente no seriado Twin Peaks!

Sempre é curioso conhecer os primeiros trabalhos de diretores hoje elogiados, principalmente quando estes primeiros trabalhos são produções baratas de horror. Francis Ford Coppola, de O Poderoso Chefão e Apocalypse Now, começou a carreira num filme B chamado Demência 13 (que é sensacional, inclusive) e ajudou Roger Corman nas filmagens de The Terror, nos anos 60. O respeitado Oliver Stone, de Platoon e Alexandre, estreou no cinema em produções de horror de quinta categoria, como Seizure (1974) e o pavoroso A Mão. E nem é preciso lembrar de um exemplo recente, o neo-zelandês Peter Jackson, que saltou do terror trash de Náusea Total e Fome Animal para blockbusters como as trilogias O Senhor dos Anéis, The Hobbit e também King Kong. O interessante é que os primeiros filmes de todos estes cineastas, mesmo sendo produções capengas de terror, trazem características que eles continuam trabalhando em suas produções posteriores. E neste, que é seu filme de estreia (sem contar os pornôs, claro), Ferrara também já enfoca certos temas que depois apareceriam com maior freqüência em todas as suas obras: além de mostrar Nova York como uma enorme selva, repleta de “selvagens civilizados“, há ainda um forte simbolismo religioso, detalhe constante na obra do diretor, desde o início na igreja até o fato de Reno levar um crucifixo no pescoço (que sempre aparece em destaque quando ele vai matar alguma de suas vítimas); o assassino chega a crucificar um mendigo, usando brocas como pregos!

Há pouco, bem pouco em O Assassino da Furadeira para justificar que seja chamado de “filme de horror“. Mais parece um drama violento no estilo Psicopata Americano. A produção de Ferrara, aliás, tem muito em comum com o livro de Brett Easton Ellis que deu origem a Psicopata Americano, e foi escrito nos anos 80. Nas duas obras, o protagonista vê no assassinato de indigentes e pessoas com quem se relaciona uma válvula de escape para os problemas e uma forma de sentir-se “vivo“. A diferença é que o “psicopata americano“, Patrick Bateman, é um yuppie bem-sucedido e cheio da grana, enquanto a falta de dinheiro é um dos motivos que leva Reno a matar. Mas o retrato decadente que tanto o livro quanto o filme de Ferrara fazem do “porquê uma pessoa normal se transforma em serial killer” é bem semelhante, sem julgamentos e sem buscar muitas explicações. Numa das melhores cenas de O Assassino da Furadeira, que até virou o menu da edição em DVD, uma musiquinha serena toca enquanto vemos Reno dormindo com a maior cara de satisfação, como se estivesse tendo um sonho dos mais pacíficos – então vemos que ele está sonhando que se banha no sangue que jorra enquanto usa a furadeira em alguma vítima!!!

O Assassino da Furadeira nunca apresenta seu personagem principal como um sujeito legal. Nada disso: desde as primeiras cenas, Reno Miller é um sujeito egocêntrico, xarope e reclamão. Ele praticamente não abre a boca para fazer outra coisa que não seja reclamar. É até espantoso o fato de Carol e Pamela continuarem vivendo com ele (e pagando suas contas), se o artista está sempre tendo ataques histéricos, berrando e xingando, como quando recebe uma conta telefônica extremamente alta e descarrega sua fúria atirando o telefone pela janela do prédio!!! E se Reno já aparenta uma total incapacidade de se relacionar com as pessoas enquanto ainda é “normal“, à medida que vai se entregando à sua loucura homicida ele piora. Fica claro que a única satisfação na vida medíocre do artista é sair às ruas matando pessoas. Numa cena em especial, Reno se entrega a um frenesi sangrento, correndo pelas ruas de uma Nova York noturna e decadente, massacrando vários transeuntes ao mesmo tempo (pior é que ninguém desconfia daquele sujeito andando com uma furadeira elétrica e um olhar tresloucado!!!). Quando volta para casa, satisfeito após o banho de sangue consumado, chega a pedir desculpas para a namorada após uma briguinha besta. Ou seja: descarregar sua fúria matando desconhecidos é a única maneira que o psicopata encontra de se relacionar com as pessoas ao seu redor, e não descontar nelas a sua raiva com o mundo!!!

Tendo um personagem principal tão horrível, Ferrara consegue um verdadeiro milagre: fazer com que o espectador, à certa altura da história, simpatize com aquele sujeito antipático e psicopata. É no momento em que vemos como Reno se agarra à interminável pintura do quadro do búfalo, aparentemente sua única alternativa de redenção e recuperação. No momento em que a pintura ficar pronta, acredita Reno, ele irá vendê-la à galeria, ficar rico e proporcionar uma vida de felicidades incomensuráveis às suas duas colegas de apartamento (além de uma vida feliz para ele mesmo). Mas as coisas não serão tão simples… E é aí que o filme sensibiliza o espectador, pois percebemos que a pintura era o último resquício de lucidez dO Assassino da Furadeira, e a única barreira que o impedia de ferir as pessoas queridas.

Embora a maior parte da história seja um suspense psicológico, é claro que um filme chamado The Driller Killer não pode ser realizado sem conter pelo menos uma meia dúzia de cenas bem violentas, envolvendo a furadeira utilizada pelo protagonista. A primeira morte é a mais sangrenta, com Reno perfurando seguidas vezes um mendigo, no peito, forçando a broca para cima e para baixo enquanto a vítima se contorce e o sangue jorra generosamente. Outro momento bastante sangrento, e que provocou a má fama do filme ao redor do mundo, é o que mostra Reno furando a cabeça de um mendigo adormecido. A cena é muito bem feita, contornando com eficiência o orçamento irrisório, e quase sentimos a dor do sujeito tendo o crânio perfurado, enquanto Reno força a broca com um visível sorriso de satisfação estampado no rosto alucinado! O espectador só não pode esperar muita variedade nas mortes… Afinal, o cara mata com uma furadeira elétrica! O que ele pode fazer além de enfiar a broca (sem malícia, por favor) na barriga, nas costas ou na cabeça de suas vítimas? Por essas e por outras, na época do lançamento do filme nos drive-ins, o marketing dizia: “Tão aterrorizante quanto O Massacre da Serra Elétrica“. Com uma comparação desse nível, os fãs de horror hardcore devem ter ficado decepcionados ao perceber que a maior parte da obra de Ferrara é viagem de estudante de cinema, e não terror – embora volta-e-meia surja algum clichê do gênero, como a porta que se fecha revelando um cadáver pendurado!

Uma foto da cena da furadeira na cabeça se transformou na capinha de O Assassino da Furadeira na época de seu lançamento em VHS nos Estados Unidos (o filme nunca chegou ao Brasil). E foi justamente esta capinha sangrenta que provocou problemas. Primeiro porque dava uma falsa ideia de ser um terrorzão gorefest repleto de sangue e violência, o que certamente não é. E também porque, nos anos 80, a Inglaterra viveu um período paraoóico de caça aos “video-nasties“, filmes muito violentos ou que passavam “maus exemplos de conduta“. Lançado originalmente sem cortes e com a capinha da cabeça furada na Inglaterra, O Assassino da Furadeira acabou se transformando num dos principais argumentos para os censores ingleses mostrarem que havia, sim, a necessidade de vetar filmes excessivamente sangrentos. A partir de 1984, a obra ficou proibida em todo o Reino Unido, com uma má fama tão grande que uma empresa só tentou lançá-la novamente no país em 1999 – sendo obrigada a cortar um minuto de cenas violentas para conseguir seu intuito. Também na Austrália o lançamento do filme teve problemas, sendo proibido pela censura em 1982 e liberado apenas em 85, mas sem a cena da broca na cabeça – os censores passaram a tesourinha na dita cuja.

Em 2004, The Driller Killer finalmente ganhou uma edição especial sem cortes em DVD, já que as fitinhas que circulavam pelo mundo tinham sempre uma cena faltando aqui e acolá. A estreia cinematográfica de Abel Ferrara teve direito a disco duplo, com um montão de extras, lançado pela Cult Epics em edição numerada (apenas 10 mil exemplares para colecionadores endinheirados). No segundo disco, a atração são os curtas feitos pelo cineasta antes de se aventurar na direção de longas, além do trailer do pornô Nine Lives of a Wet Pussy.

O mais engraçado é o fato deste DVD de 2004 ter uma faixa de comentário com um visivelmente lesado Ferrara, onde o cara só balbucia as frases, parecendo estar completamente chapado ou pelo menos muito mamado! Ao comentar o filme 25 anos depois de tê-lo dirigido, o hoje respeitado Ferrara mais dá risada do que propriamente comenta alguma coisa. Quer dizer, o cineasta está praticamente assumindo que o barulho provocado pela sua obra é exagerado e que aquilo não passa de uma brincadeira de diretor iniciante. Durante os 90 minutos da faixa de comentário, Ferrara não fala uma única coisa que preste ou qualquer curiosidade sobre os bastidores da filmagem, largando intermináveis “woooow” e “ohhhh man!“. Em compensação, ele ridiculariza a própria interpretação (“Este é Jimmy Lane, e não eu“, brinca) e também muitas das cenas desconexas. Num momento engraçadíssimo, Ferrara chega a ironizar a falta de uma conclusão decente para a história, berrando, ao final do filme: “Porra, quem filmou isso? Quem cortou o final do filme? Deveria ter um final ali! hahaha“.

Logo, se o próprio responsável pelo filme não o respeita, por que diabos nós deveríamos respeitar O Assassino da Furadeira? Certos críticos argumentam que, mais do que um “terror cult“, a estreia cinematográfica de Ferrara é pura arte. Bem, se abrir a cabeça de alguém com uma furadeira e esquartejar um coelho real é arte, então Cannibal Holocaust deve ser algo à altura de Cidadão Kane… Por isso, o melhor é esquecer o que dizem os críticos (que insistem em enxergar qualquer bobagem vomitada na tela como uma metáfora para sei lá o quê!) e curtir O Assassino da Furadeira como a tralha que ele realmente é: o primeiro filme de um cineasta muito talentoso, com mais erros do que acertos, daquele tipo que é praticamente impossível de gostar, mas que mesmo assim tem suas qualidades. Compre o DVD da Aurora e aprecie com a cabeça aberta – mas não aberta com uma furadeira, bem entendido.

Leia também: O Outro Assassino da Furadeira

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3 Comentários

  1. Acabei de assistir e vi muito do clima dos filmes citados por você no texto. Felipe pretende voltar com o blog “filmes pra doidos” ?

  2. Venho acompanhando seus artigos, estao de parabens !

  3. Eu curto essa doideira !
    ” The Driller Killer ” é um dos Video Nasties na versão SEM CORTES que está na minha coleção !
    Não é filme pra todos os gostos !

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