Críticas

O Escorpião Negro (1957)

É um dos mais representativos do gênero, ainda mais pelo fato de ter sido animado pelo mestre O’Brien, o mentor e incentivador da técnica, Ray Harryhausen

O Escorpião Negro
Original:The Black Scorpion
Ano:1957•País:EUA
Direção:Edward Ludwig
Roteiro:Robert Blees, David Duncan, Paul Yawitz
Produção:Jack Dietz, Frank Melford
Elenco:Richard Denning, Mara Corday, Carlos Rivas, Mario Navarro, Carlos Múzquiz, Pascual García Peña, Fanny Schiller, Pedro Galván, Arturo Martínez

O cinema de ficção científica da década de 1950 não deixou praticamente nada passar em branco. Existiram dezenas de variações sobre um mesmo tema, de modo que todas as possibilidades foram exaustivamente exploradas. Invasões alienígenas – tanto com propósitos maléficos (A Guerra dos Mundos, 1953) ou benéficos (O Dia em Que a Terra Parou, 1951) – aconteceram aos montes; cientistas demasiadamente “entusiasmados” (como em A Mosca da Cabeça Branca, 1958) ou absolutamente loucos (como em A Noiva do Monstro, 1956), em meio às suas alucinadas experiências, foram abundantes; “space operas” empolgantes e coloridas (como Guerra Entre Planetas, de 1955, e Planeta Proibido, de 1956) também deram suas maravilhosas pitadas de nostalgia.

Mas, provavelmente o tema mais explorado desse período e o que mais oferecia alternativas aos roteiristas foi o das ameaças gigantes oriundas do próprio planeta Terra: ou seja, não faltaram insetos e outras criaturas gigantescas para nos ameaçar. No caso dos insetos, eram os chamados “big bugs” (insetos gigantes), que, de tão influentes, são hoje classificados como um subgênero da própria ficção científica daquele período. Refletindo as paranoias que então tomavam conta das mentes, algumas dessas ameaças eram fruto dos avanços científicos do próprio homem, como no caso dos primeiros passos dados pela física nuclear, que era a novidade do momento e riquíssima de fontes de inspiração para o fantástico.

A radiação e seus terríveis efeitos, por exemplo, trouxeram à luz obras clássicas como O Mundo em Perigo, de 1954 (sobre formigas que, expostas à radiação, ficam gigantes e se tornam uma ameaça mortal aos habitantes do Novo México), ou O Começo do Fim, de 1957 (sobre gafanhotos que, após terem sido contaminados com produtos agrotóxicos e radioativos, tornam-se também gigantes para atacarem Chicago). Essa vertente, sempre com os perigos da radiação como pano de fundo, funcionava como um alerta à sociedade, e nem sempre era apresentada de forma correta ou sensata por escritores e roteiristas. Mas também existia um outro tipo de variação sobre esse mesmo tema, com os “big bugs” às vezes surgindo como descobertas inesperadas de seres que já se acreditavam extintos (ou de seres que nem se acreditava que existissem); é o caso de A Fúria de Uma Região Perdida, de 1957 (sobre um louva-a-deus gigante que é trazido à vida após milhões de anos de congelamento no Ártico), e de O Escorpião Negro (“The Black Scorpion”), também de 1957 (sobre um leva agressiva e assustadora de escorpiões triássicos que escapam do subsolo vulcânico depois de erupções inesperadas). Tratemos, pois, desse pequeno clássico preto e branco que, ao lado do já citado O Mundo em Perigo, é considerado um dos melhores do gênero.

E não é para menos: com direção de Edward Ludwig, a partir de uma história de Paul Yawitz, o filme apresenta os incríveis efeitos especiais “stop-motion” (quadro-a-quadro) de ninguém menos que Willis O’Brien, o famoso animador das criaturas fantásticas vistas em O Mundo Perdido, de 1925, e King Kong, de 1933, e um dos pioneiros da técnica. Apesar do título se referir a um único escorpião, na realidade são vários, que, ao contrário do líder, só conseguem escapar do subsolo próximo ao final, para deixar em polvorosa a população de um pequeno vilarejo mexicano. O grande astro, no entanto, é justamente o chefe deles, uma colossal criatura negra que passa o filme inteiro ejaculando uma gosma nojenta pela boca escancarada, enquanto devora vacas e camponeses assustados – é estranhamente atraído por carne e sangue! (é o tipo de produção que esses caras metidos a psicólogos sabichões certamente iriam apontar, exageradamente, como repleta de representações e simbolismos fálicos…).

Seu descobrimento e localização se dificultam pelo fato de só andar à noite, como realmente agem os escorpiões. Entretanto, após atacar dois técnicos que faziam manutenção em postes telefônicos do vilarejo, os geólogos americanos Hank Scott (Richard Denning) e Arturo Ramos (Carlos Rivas), que faziam pesquisas na região, juntamente com a belíssima fazendeira Tereza Álvares (Mara Corday), se dão conta da existência da terrível criatura. Tentam eliminá-la à moda antiga e fracassam; o monstro, devido a seu exoesqueleto ultra-resistente, é praticamente imune a qualquer ataque, excetuando-se uma pequena área próxima a seu quase inexistente pescoço, fato que os geólogos só descobrem – como sempre – depois que os estragos já estão feitos. Mas, feita a algazarra noturna, o escorpião volta às profundezas do subsolo vulcânico, o que possibilita as autoridades descerem em sua busca com gás venenoso – a única coisa que, acredita-se, poderá detê-lo.

Os geólogos descem então à sua procura, juntos com um garoto-pentelho-clandestino, e falham redondamente: eles não imaginavam que topariam com um verdadeiro exército de escorpiões, além de outras criaturas pré-históricas (como uma centopeia e um besouro gigantes, ou coisa que o valha) na assustadora caverna (existe até mesmo uma excepcional batalha entre um dos escorpiões e essa tal centopeia). Fracassados, o trio resolve voltar à superfície e dinamitar a entrada da caverna. Contudo, mais uma vez não logram êxito, pois com a explosão, desastrosa, o acesso agora não está livre para somente um escorpião, mas para todos eles. Uma vez livres, porém, eles começam a atacar mortalmente uns aos outros, depois de causarem estragos em um trem. Só sobra o chefe – o escorpião negro -, que é atraído com carne sangrenta até um estádio, onde fica encurralado por militares pesadamente armados. Após muita batalha entre os soldados e a criatura, o escorpião é mortalmente ferido na tal área vulnerável próxima a seu quase inexistente pescoço. E assim, a humanidade se livra indiscriminadamente de mais uma anormalidade ameaçadora, como, na realidade, está sempre pronta a fazer.

 

Ao contrário de formigas, abelhas e aranhas, não me lembro de ter visto frequentemente escorpiões gigantes no cinema; de fato, algumas dessas fascinantes criaturas atacaram Perseu e seus companheiros no clássico da fantasia mitológica Fúria de Titãs, de 1981, e podem haver ainda outros exemplos, mas confesso que não me lembro agora. Argumento, entretanto, que O Escorpião Negro, principalmente por ter sido levado às telas mediante o uso dos clássicos e melancólicos efeitos “stop-motion” – dificílimos – e não por monstros mecânicos revestidos de pano e papelão, é um dos mais representativos do gênero; ainda mais pelo fato de ter sido animado pelo mestre O’Brien, o mentor e incentivador de outro grande mestre da técnica, Ray Harryhausen, responsável por algumas das mais valiosas pérolas do cinema fantástico, inclusive Fúria de Titãs

N.E.: Esse artigo foi publicado originalmente no fanzine “Juvenatrix” # 71 (Fevereiro de 2003).

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1 Comentário

  1. Anselmo Luiz

    Outro filme em que aparece escorpiões gigantes é no filme ” Damnation Alley – Na Trilha do Inferno Nuclear – 1977 com: Jan Michael Vicente e George Peppard ” lançado em VHS pela Globo Video.

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