4.6
(13)

Impetigore
Original:Perempuan Tanah Jahanam
Ano:2019•País:Indonésia, Coreia do Sul, EUA
Direção:Joko Anwar
Roteiro:Joko Anwar
Produção:Shanty Harmayn, Tia Hasibuan, Aoura Lovenson Chandra, Ben Soebiakto
Elenco:Tara Basro, Ario Bayu, Marissa Anita, Christine Hakim, Asmara Abigail, Kiki Narendra, Zidni Hakim, Faradina Mufti, Abdurrahman Arif, Muhammad Abe Baasyin, Mursiyanto, Ahmad Ramadhan, Aura Agna, Sindris Ogiska G., Devona Queeny

(o texto abaixo apresenta SPOILERs leves)

Um estranho enfurecido, armado com um enorme facão, ataca inesperadamente uma jovem em seu local de trabalho. Maya é salva no último segundo por um policial que alveja o criminoso. Mas antes de cair, o desconhecido murmura uma frase misteriosa: “Não queremos o que sua família deixou para trás”. A hostilidade abrupta e as últimas palavras do agressor desestruturam Maya, que passa a ser consumida por uma série de inquietações: quem seria este indivíduo? Por que um ataque tão bárbaro e sem sentido? Qual o segredo sobre sua família que ela desconhece?

De fato, a garota não se lembra de detalhes sobre a infância vivida no interior do país. Incomodada, não suportando tanta angústia, ela resolve retornar – acompanhada de uma amiga – ao povoado onde nasceu e assim descobrir mais a respeito de sua origem. Maya também desconfia que seus pais falecidos seriam donos de algum imóvel na aldeia e que ela seria a provável herdeira. Porém, elas não estavam prontas para o que iriam encontrar: um vilarejo sombrio, praticamente intocado pelo tempo e que guarda um mistério silencioso, mas assustador. As duas amigas acabam envolvidas em uma trama bizarra, cujo desfecho é digno do pior pesadelo já imaginado.

A produção indonésia Impetigore aka Perempuan Tanah Jahanam – na tradução literal: Mulher da Terra Amaldiçoada – estreou nos cinemas locais em 2019. Mais de 700 mil espectadores assistiram ao filme na primeira semana de exibição, um resultado bastante expressivo, considerando o contexto regional. Entretanto, o longa se tornou conhecido internacionalmente após a sua apresentação na Sessão da Meia-noite do Festival de Sundance, quatro meses depois, no início de 2020. O público e a crítica aprovaram a variante asiática para o chamado folk horror. O filme, além de explorar uma cultura e cenário bem característico, surpreendia pela produção de primeiríssima qualidade regada à uma boa dose de sangue. Em terras indonésias, Impetigore recebeu 17 indicações para o 40º Citra Awards, maior premiação de audiovisual do país, vencendo 6 delas, incluindo as principais: Melhor Filme e Melhor Diretor. A produção também foi escolhida como o representante oficial para disputar uma vaga entre os candidatos a Melhor Filme Estrangeiro, na 93ª edição do Oscar, mas acabou não sendo selecionada pela Academia. Obviamente bastou para que o longa tivesse a distribuição garantida nos canais de streaming dos Estados Unidos, ainda no mesmo ano, pela plataforma Shudder. Infelizmente para nós, simples e mortais lusofalantes tupiniquins, o longa continua inédito e sem previsão de lançamento. Resta torcermos para que a Prime Vídeo ou Netflix – esta última, que já oferece em seu catálogo outras obras indonésias, como Headshot (2016), A Noite Nos Persegue (2018) e Fortuna Maldita (2018) – descubra Impetigore e disponibilize para o público brasileiro.

O roteiro e a direção de Impetigore é de Joko Anwar. O cineasta vem estabelecendo uma carreira sólida e relevante dedicada sobretudo ao gênero horror. Anwar também escreveu e dirigiu em 2017, Pengabdi Setan (Satan’s Slaves), uma competente refilmagem de um horror rodado originalmente nos anos 80. Pouco tempo depois recriou o enredo para outro remake bem-sucedido, The Queen of Black Magic, este dirigido por Kimo Stamboel.

Anwar anunciou Impetigore ainda em 2011, quando revelou um primeiro pôster para a obra. Contudo, o projeto acabou sendo abandonado quando o realizador assumiu outros compromissos. Até que, em 2018, a produção foi finalmente retomada com o suporte de algumas produtoras locais (Rapi Films e BASE Entertainment) e estrangeiras, como a CJ Entertainment (da Coreia do Sul) e a internacional Ivanhoe Pictures (uma das responsáveis pelo incrível O Lamento em 2016). 

Os não-iniciados no gênero horror made in Indonésia devem se surpreender principalmente pelo elevado padrão técnico, superior à boa parte das produções realizadas na terra do Tio Sam. O caso de Impetigore é até mais considerável, pois além de todos os pontos positivos – como a fotografia impecável (fundamentada em uma paleta esverdeada que reforça o estranhamento ligado ao cenário bucólico e envelhecido da aldeia) e o elenco hábil em seus papéis (principalmente a protagonista vivida por Tara Basro e o suposto vilão interpretado por Ario Bayu) – a trama também explora elementos culturais e religiosos pouco conhecidos pelo ocidente (por exemplo, a prática do teatro de marionetes Wayang, além é claro, das superstições locais e as famigeradas práticas de magia negra), o que torna o longa potencialmente interessante.

Recentemente, Anwar comentou que o conceito do roteiro de Impetigore foi desenvolvido partindo de uma história grotesca que seu irmão mais velho lhe contava, quando eram crianças, de que algumas marionetes utilizadas nos tradicionais teatros de bonecos seriam feitas com pele humana.

Entre as dificuldades enfrentadas por Anwar para tirar o seu projeto do papel está uma curiosa: o cineasta teria quase morrido durante as filmagens, que ocorreram em locações no interior do país. Anwar contraiu dengue nos primeiros dias de trabalho e acabou internado por uma semana, atrasando as gravações, que estavam programadas para durar apenas um mês.

Vale um aviso aos espectadores, um equívoco pode ser motivado pela expectativa criada pelo componente gore do título internacional, Impetigore. Existe sim, violência e cenas mais hardcore, como decapitações, esfolamento (retirada de pele de um ser vivo), mutilações e outros; no entanto, não há exageros ou gratuidade nestas sequências, elas acontecem segundo a necessidade da trama.

O título em inglês aparentemente faz alusão a doença que impede que os recém-nascidos na vila sobrevivam – eles nascem literalmente sem pele. Impetigo é uma doença real que normalmente atinge os bebês, criando feridas sobre a pele. É irônico que ambos os títulos, o indonésio e o internacional, tragam alguma fração de spoilers importantes sobre o enredo.

Vale evidenciar a eletrizante e desesperadora sequência de abertura, muito bem dirigida, ambientada em um pedágio de uma rodovia, na qual a protagonista é atacada por um lunático armado com um facão. É uma amostra do que está por vir, em termos de qualidade, mas que destoa do ritmo cadenciado do restante do filme, quando o cenário urbano é substituído pelo cenário rural.

Enfim, Impetigore é uma produção bem-acabada que merece ser conhecida, e que tem seus poucos problemas (alguns sustos fáceis e outras soluções questionáveis, como a possessão didática que esclarece dúvidas pendentes) diluídos entre vários pontos positivos, entre eles a ambientação perturbadora e sombria. O longa é uma boa oportunidade para o espectador, que ousar enfrentar as barreiras culturais, experimentar o gênero horror a partir de um ponto de vista diferente do ocidental.

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3 Comentários

  1. Gostei demais desse filme! Tem alguns pontos fracos (soluções fáceis e convenientes, os minutos finais desnecessários), mas a história no geral é muito boa. A tensão é bem construída pelo ambiente hostil, impossibilidade de fuga, medo do desconhecido e das ações geradas por crenças diferentes.

  2. eu vi esse fim de semana passado e gostei muito
    vale a pena dar uma chance

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